Conceitos Fundamentais da Psicologia

Homenagem póstuma a Juan Alfredo César Müller

Curso em 6 aulas, por Olavo de Carvalho

Realizado em Colonial Heights, VA, de 4 a 19 de setembro de 2009

 

Mais ainda que os estudantes de filosofia, os alunos que me chegavam das faculdades de psicologia no Brasil sempre me surpreendiam por sua completa ignorância dos capítulos mais importantes e valiosos da história da sua disciplina.

Não há surpresa, é claro, sem uma expectativa contrariada. De onde veio a expectativa que essa experiência contrariava?

Jamais tendo freqüentado um curso universitário de psicologia, fui iniciado nessa área de estudos pelo psicólogo clínico Juan Alfredo César Müller, argentino de nascimento, criado na Suíça, terra de seu pai, onde estudara em Zurique, então ainda a capital da ciência psicológica no mundo. Ali viveram e ensinaram, entre inumeráveis outros pioneiros, Carl-G. Jung, Lipot Szondi, Max Pfister, Marie-Louise von Franz, Jolande Jacobi.

A erudição de dimensões faraônicas e a habilidade quase mágica com que esse meu amigo transformava seus conhecimentos em meios de cura – com uma verdadeira obsessão de aliviar o sofrimento humano, o que fazia dele o homem mais bondoso que jamais conheci –, não impediam que, como explicador, colocado diante de uma platéia de alunos, o dr. Müller fosse um desastre pedagógico. Ele falava como se todos tivessem lido tudo o que ele lera, como se todas as riquezas do seu mundo interior fossem de domínio público, como se sua própria experiência de décadas de consultório fosse uma banalidade ao alcance de qualquer primeiranista de psicologia da PUC. Para piorar, não tinha ordem nenhuma, ia espalhando idéias e evocações conforme lhe apareciam na cabeça, sugeridas pelas mais fortuitas circunstâncias do dia. Ninguém entendia coisa nenhuma, evidentemente. Saíam todos mais ou menos aterrorizados, só não falando mal do conferencista porque ele tinha uma espécie de autoridade natural (Marte em Leão na Casa X deve servir para alguma coisa, asseguram os astrólogos), reforçada pela extrema elegância no vestir e pela nobreza dos traços fisionômicos, que nos fazia sentir estarmos diante de um príncipe e não de um homem que trabalhava doze horas por dia para sustentar mulher e filhos. Mas, se a marca pessoal se impunha por si, do ensino não sobrava praticamente nada. Da minha parte, asseguro que, se eu não tivesse visto aquela mixórdia toda tomar forma, repentinamente, como solução clínica para tantas encrencas humanas, eu teria achado aquele homem, com todo o seu brilho, apenas uma mente confusa. Mas ali não havia confusão nenhuma, havia apenas a falta de vocação filosófica de alguém que não procurava soluções teóricas gerais e sim a cura para este ou aquele sofrimento humano singular, irrepetível. Era a necessidade do momento que, somada a uma intensa compaixão, punha ordem naquele caos e ditava ao psicoterapeuta, com precisão assombrosa, o caminho a seguir. Passado o problema, eliminada a dor, ele partia para o caso seguinte sem jamais se perguntar as razões do sucesso, o método subentendido no improviso, a fórmula da sua própria mágica.

Como o dr. Müller não tinha a menor ambição teorizante e só lhe interessava a prática de consultório, e eu, ao contrário, só me sentia à vontade entre os conceitos gerais e tremia de horror ante a hipótese de viver como ele, fechado numa sala com malucos o dia inteiro, vi-me um dia na obrigação de tentar apreender e expressar os princípios subjacentes que o orientavam nessa prática, princípios que ele jamais buscara esclarecer nem mesmo para si próprio.

Daí resultou, numa série de mais de cem encontros no seu consultório ou na sua casa no Parque da Cantareira, em São Paulo, um verdadeiro curso de psicologia, sustentado pelas leituras que ele me recomendava, abrindo-me os horizontes de um dos períodos mais férteis na busca do ser humano pelo autoconhecimento, a primeira metade do século XX europeu.

Foi ele quem primeiro me mostrou que não existia nenhuma “psicologia de Jung”, apenas uma longa autobiografia interior transposta em linguagem de psicólogo (o que me fez enxergar a coerência subjetiva por trás das incoerências medonhas da teoria). Foi ele quem me revelou as obras de inumeráveis gigantes da investigação psicológica e psiquiátrica, como Paul Diel, Arthur Janov, Maurice Pradines, René Le Senne, Ludwig Klages, Viktor Frankl, Igor Caruso e sobretudo L. Szondi, que ele considerava seu guru, se bem que na prática não lhe seguisse as lições senão com arranjos que teriam escandalizado o mestre. Foi ele quem me indicou as raízes da psicologia moderna na alquimia e na astrologia da Idade Média e da Renascença, fazendo-me estudar Paracelso e Fludd, Jacob Boehme, Morin de Villefranche e Jerônimo Cardan. Foi ele quem me ensinou a ver na doutrina hindu das castas, não o esquema de uma ordem social, mas uma ciência tipológica de aplicações incrivelmente vastas. E foi ele que, com uma coragem intelectual notável e uma antecipação de décadas hoje totalmente confirmada, me convenceu de que a maior ou única esperança de cura para neuroses e psicoses era a farmacologia, para grande humilhação dos psicoterapeutas como ele próprio.

O que mais me impressionava não era só a amplitude dos interesses intelectuais que o meu amigo revelava nessas conversações – da literatura à físico-química, da engenharia naval à filosofia de Hegel, dos Vedas à economia marxista, da neurologia às viagens espaciais –, mas a curiosidade sem prevenções com que ele se abria para aprender com as correntes de pensamento mais díspares e heterogêneas na sua área especializada, sem espantar-se com diferenças insanáveis e contradições insolúveis. Lembro-me de que, no mesmo dia, ele me recomendou dois livros que ninguém pensaria em juntar:The Biology of Human Conflict, de Trigant Burrow (1937) eThe Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind, de Julian Jaynes (1976). Bastava ler essas obras para perceber, de um lado, a riqueza inesgotável de perspectivas que se ofereciam à investigação psicológica e, de outro, a aparente impossibilidade de uma teoria psicológica geral que unificasse o campo sob o império de um corpo de princípios abrangentes. Eu notava que, na prática, o meu amigo lançava mão do que lhe parecesse melhor no momento, unificando nos resultados aquilo que, na teoria, não eram somente contradições lógicas, mas abismos entre planos de realidade diferentes, incongruências de facto irredutíveis à formulação racional de uma contradição.

Quando ele morreu, o que me sobrou foi uma visão abrangente do conjunto do que se fizera no século XX (especialmente na sua primeira metade) sob o nome de “psicologia”, acrescida de uma percepção quase dolorosa da impossibilidade de chegar ali a uma teoria geral como existe em física ou até mesmo em economia. Ao mesmo tempo, adquiri com isso a consciência clara de que a ciência ou presumida ciência psicológica era esse matagal de contradições, de que qualquer tentativa de simplificar por eliminação era uma amputação intolerável e uma fuga da realidade (o que se observava, por exemplo, no behaviorismo).

Sem qualquer pretensão de criar eu mesmo essa teoria geral, entendi que vários passos preliminares nessa direção poderiam ser dados imediatamente. O primeiro era ver se as várias perspectivas teoricamente incongruentes não se articulavam pelo menos de um ponto de vista classificatório, podendo reduzir-se a um sistema de dificuldades aquilo que recusava unificar-se como corpo de soluções.

Daí surgiram duas investigações que por longo tempo animaram a minha vida de estudos: a busca de uma definição da “psique” e a classificação das teorias, não tomadas em si mesmas, mas na sua abordagem de uma questão em particular: os fatores que, de maneira explícita ou implícita, cada uma delas considerava decisivos na formação da personalidade humana. Tal foi a origem de duas séries de conferências que repeti em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Curitiba, entre 1990 e 2005, sob os títulos de “Que é a Psique?” e “As Camadas da Personalidade”. O método usado, nos dois casos, foi o mesmo: considerar as teorias não como construções lógicas, mas como “visões” de um mesmo objeto enigmático dado na experiência, para averiguar se, do cruzamento das várias perspectivas, a própria forma do objeto não acabaria se revelando com maior clareza e determinando por sua vez o porquê da diversificação de perspectivas.

É claro que, a partir de um certo ponto, os problemas da teoria psicológica se mesclavam de tal modo com os da teoria do conhecimento, que se tornava impossível separar os dois campos. Deixei esse problema para depois, e não voltei a ele senão recentemente (este é um dos temas que pretendo explorar no presente curso).

Em compensação, o esclarecimento do conceito de psique e a articulação das várias teorias como visões do problema da personalidade desembocavam naturalmente na questão da fronteira entre a psique humana e a psique animal. Partindo da definição aristotélica do homem como “animal racional”, busquei então esclarecer em que sentido o ser humano “possuía” – ou não – o dom do pensamento racional. Como o próprio Aristóteles recomendasse em todos os problemas o uso do método genético – que ele próprio não teve ocasião de aplicar a esta questão em especial –, perguntei em seguida qual a ordem temporal e dialética em que cada ser humano adquire, aos trancos e barrancos, o domínio, sempre relativo e precário, do uso da razão. O fato brutal que aos poucos foi se impondo à minha visão foi a desproporção insanável entre os problemas de ordem lógico-racional colocados a um ser humano pela vida mesma e os recursos intelectuais à sua disposição em cada etapa da existência. Daí a teoria do “trauma da emergência da razão”, que também vim expondo em vários cursos e conferências desde a década de 90. Essa teoria levava inevitavelmente à conclusão de que a ênfase dada por tantas escolas psicanalíticas aos fatores irracionais e instintivos na origem das neuroses se baseava numa incompreensão da natureza problemática – e, sob certos aspectos, temível – da própria razão humana.

Essas investigações, por sua vez, se prolongavam naturalmente em várias outras, de teoria do conhecimento propriamente dita e até de ontologia, que expus sob os títulos de “círculo de latência”, “conhecimento por presença”, “estrutura da objetualidade” etc., as quais só tocam no presente curso de raspão.

O que, sim, diz respeito a ele de modo direto é o conjunto de investigações que empreendi sob o nome de “astrocaracterologia”. O problema aí era o seguinte: como todas as tipologias e caracterologias modernas tinham uma similaridade estrutural notável com as da Antigüidade, e estas se baseavam, por sua vez, no simbolismo dos quatro elementos da química antiga e nos três “modos de ação” hindus ainda em uso na prática dos astrólogos, o estudo dessas analogias levou inevitavelmente à verificação de uma influência residual de velhas noções astrológicas e alquímicas na psicologia contemporânea. Por outro lado, existia uma imensa bibliografia astrológica com pretensões de psicologia, especialmente jungiana. Havia ali, sem sombra de dúvida, um problema a ser investigado. As polêmicas vulgares pró e contra a astrologia, evidentemente, não podiam me ajudar em nada. Era preciso equacionar o problema de uma maneira totalmente nova, de modo a permitir que o tiroteio de opiniões se transformasse em investigação científica. Meu ponto de partida foram as pesquisas estatísticas de Michel Gauquelin, que sugeriam a existência de uma correspondência entre a estrutura básica da personalidade individual e as posições dos planetas na hora do nascimento, ao mesmo tempo que assinalavam a incapacidade das teorias e técnicas astrológicas existentes para dar conta desse fenômeno. A primeira coisa a fazer, portanto, era separar aquilo que os debates vulgares confundiam: o “fenômeno astrológico” e as “doutrinas astrológicas”. Era evidentemente impossível pronunciar-se sobre estas últimas, que era o que todo mundo fazia, sem antes ter investigado o primeiro por meios independentes das premissas astrológicas, o que era precisamente o que todos os debatedores se recusavam a fazer. O trabalho prosseguiu com uma investigação das possiblidades de comparação entre a descrição do caráter, tal como feita pelos astrólogos, e as diferentes tipologias científicas surgidas no século XX. A esse estudo chamei “astrocaracterologia”, expondo-o em cursos de dois anos repetidos em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba.

Tal é o repertório das minhas investigações psicológicas. Quando comecei a dar cursos e conferências a respeito, fiquei chocado com a pobreza de conhecimentos com que chegavam às minhas aulas os estudantes de psicologia. Não só eles ignoravam tudo da psicologia européia, mas, presos no binômio psicanálise-behaviorismo, nem mesmo imaginavam que pudesse existir algo fora daquilo que lhes ensinavam em universidades capengas (incluídas nisso a PUC e a USP). De astrologia, alquimia e esoterismo em geral, conheciam apenas a propaganda popular da New Age, jamais tendo ouvido falar dos estudos desenvolvidos, ao longo de mais de meio século, no célebre Instituto Warburg. Autores fundamentais como Titus Burckhardt, Charbonneau-Lassay, Raymond Abellio, Jacques Halbronn, Daniel Verney, lhes eram totalmente desconhecidos.

No curso da minha experiência pedagógica, fui muitas vezes levado a concluir que, dos assuntos que me interessava lecionar, era preciso recuar até as bases mais elementares da vida intelectual, totalmente faltantes num ambiente de miséria cultural indescritível. Foi daí que surgiu o curso “Introdução à Vida Intelectual”, depois transformado no “Seminário de Filosofia”.

Hoje em dia, posso garantir que meu esforço pedagógico de décadas já criou um público novo e mais qualificado, apto a participar utilmente de investigações mais ambiciosas.

É a esse público, essencialmente, que se dirige o presente curso, no qual condensarei os resultados das investigações com que procurei me mostrar digno do legado recebido daquele meu amigo e professor. No seu último dia de existência, Juan Alfredo César Müller anunciou, com a maior calma, que iria morrer naquela mesma noite – e, mostrando algumas apostilas de meus cursos, disse que morria satisfeito por saber que não trabalhara em vão.

Plano da exposição

1. A busca de uma teoria psicológica geral

2. Psicologia e teoria do conhecimento

3. A natureza da psique

4. As camadas da personalidade

5. Psicologia e psicopatologia

6. Perspectivas da investigação em psicologia