Raízes da Modernidade

Curso em 6 aulas por Olavo de Carvalho
Realizado em Colonial Heights, VA, entre 17 e 22 de outubro de 2011

 

 

Os manuais, os professores de ginásio, a mídia popular e a sabedoria convencional descrevem o advento da modernidade pela recusa da autoridade da Igreja, pelo descrédito da filosofia aristotélica, pelo primado das ciências de observação sobre as antigas deduções metafísicas e pelo culto da liberdade individual em oposição à obediência passiva que havia caracterizado, segundo se diz, a conduta do homem medieval.

Tudo isso é meticulosamente errado. A autoridade do Papa cresceu formidavelmente no período renascentista até fazer da Igreja a organização centralizada e altamente burocratizada em que se tornou. O aristotelismo perdeu prestígio na física, é verdade, mas começou a imperar, como nunca antes, no mundo das letras e das artes. A ciência de Galileu e Newton fazia pouco caso da observação da natureza, preferindo a construção de modelos matemáticos sem equivalência na realidade sensível. E o poder dos governantes cresceu desmesuradamente, impondo a administração centralizada e sufocando as liberdades locais e grupais que haviam vigorado durante toda a Idade Média.

Não há um só historiador profissional que não saiba dessas coisas, mas a tentação de definir uma época tão-somente pela letra do discurso dominante, sem o necessário contraponto entre as idéias e os fatos, parece ser mesmo irresistível. Quase nunca se menciona, por exemplo, que só no Renascimento o Papado obteve pleno domínio das universidades, que até então desfrutavam de uma invejável autonomia. E não faz sentido querer enxergar uma apoteose da liberdade individual precisamente na época do surgimento dos regimes absolutistas que só viriam a cair três ou quatro séculos depois.

Em vez de tentar encontrar um desenho geral, uma definição de conjunto ou o perfil essencial da Modernidade, este curso vai destacar certos traços singulares que dissolvem o estereótipo dominante, mesmo ao preço de não colocar no seu lugar senão uma série de perguntas sem respostas.

O objetivo do curso não é dar uma “visão” da Modernidade, mas apenas sublinhar alguns fatos de extraordinária importância que a imagem popular consagrada nega, omite ou distorce.

1. O primeiro desses fatos é a matematização da natureza. Edmund Husserl já analisou esse fenômeno e suas consequências no livro A Crise das Ciências Européias, mas ainda falta muito para que os resultados das suas investigações magistrais se integrem na cultura corrente. Isso deve-se em parte à linguagem carregada, quase esotérica, em que ele expõe suas conclusões. Um primeiro passo deste curso será explicar a visão husserliana da ciência de Galileu, Newton e Descartes.

2. Um segundo traço inaugural da modernidade é o caráter conscientemente militante e propagandístico de muitos escritos filosóficos e científicos da época. Os meios de persuasão usados para impor as novas ciências foram, muitas vezes, de índole mais retórica que científica. Em contraste com a imagem de uma época de esclarecimento racional em oposição a uma era anterior de trevas e superstições, é assombroso o número de crendices tolas que perpassam as obras de Galileu, Newton, Descartes, Bacon e tutti quanti. A cultura corrente apaga esses aspectos, separando-os, como detalhes acidentais, do núcleo de idéias promissoras que aqueles sábios transmitiram à posteridade. Mas essa separação ex post facto não corresponde ao pensamento genuíno dos fundadores da modernidade. 

3. Em vez de uma época de pura racionalidade científica, a Modernidade foi, no seu início, e prolongando-se pelo menos até o século XVIII, a apoteose da magia, da alquimia, da astrologia e do ocultismo.

4. O extraordinário desenvolvimento que a poesia, o teatro e as artes narrativas tiveram naquele período forneceu aos escritores científicos e filosóficos os mais prodigiosos meios de dar aparências verossímeis ao que quer que dissessem. O começo da Modernidade foi, por isso, uma época marcada pelo florescimento de falsas narrativas biográficas e autobiográficas. As eras subseqüentes aceitaram essas narrativas, por vezes, com uma credulidade espantosa. As imagens convencionais de Newton, Galileu, Descartes, Bacon, Giordano Bruno e muitos outros correspondem bem pouco à realidade histórica. O hiato entre a historiografia profissional e as crenças culturais vigentes alargou-se ao ponto de que o homem medianamente culto de hoje em dia vive num espaço histórico bastante fantasioso.

A exploração desses pontos deve concorrer para estimular o aluno a crer menos nos mitos culturais estabelecidos do que na força da investigação sincera.