Quando cursei os anos colegiais eu me fazia passar por aluno interessado por Literatura aos professores. Eu poderia dizer que me passaria, até, por um erudito. Tudo porque eu lia os livros obrigatórios e dava passeios semestrais na biblioteca para lamber um pouco de poesia. Na adolescência a gente sempre cai, inevitavelmente, em Pessoa. Meu heterônimo preferido era o mesmo de 90% dos adolescentes: o avoado Álvaro de Campos — é lógico. Mas esse namoro com a poesia passou logo. Quando eu não recebia mais nenhum estímulo da sociedade por segurar livros de poesia nas horas de recreio, com mais vontade de exibir a capa do que me concentrar, propriamente, na leitura, eu larguei desse gosto exótico. Foi aí que um amigo disse, sobre os heterônimos de Pessoa: — Larga do Álvaro de Campos! Sábio mesmo é o Caeiro!
Mas esse negócio de natureza, terra e flor não era mesmo a minha praia.
Pego agora um livrinho com a poesia completa de Caeiro e abro em qualquer página. Vejam as relações que encontrei com as aulas do Olavo, numa breve leitura de banheiro:
A realidade e o mergulho na água fria
Aula 5, 25 de abril.
Aluno: Há relações entre o fundamentalismo de Voegelin, que você comentou na última aula, e a paralaxe cognitiva?
Sim, certamente. Voegelin usa a palavra fundamentalismo no sentido caricatural. Não é o sentido de fundamentalismo religioso como as pessoas usam normalmente. Fundamentalista é todo sujeito que acredita ou duvida de uma coisa que ele não sabe o que é. É o indivíduo que está mais interessado em alcançar rapidamente uma crença a favor ou contra, do que em ter a experiência da realidade. E, sobretudo, a pressa em aceitar ou negar o que lêem ou ouvem falar, sem alcançar a substância de experiência que tem por trás daquilo. Isto é uma coisa terrivelmente alienante. A relação que isto tem com a paralaxe cognitiva é a seguinte: a paralaxe cognitiva se torna epidêmica a partir do século XVII e XVIII e vai crescendo. Uma coisa que vocês têm de meter na cabeça é a seguinte: a realidade existe, ela já existia milênios antes de você chegar aqui. Ela existe, é enorme, complexa e foi justamente o espanto, o susto diante do tamanho e complexidade da realidade que desencadeou a filosofia. Aristóteles chama a essa emoção thambos, espécie de espanto – admiração e horror ao mesmo tempo – medo. Mas, ao invés de você se refugiar deste medo da realidade, você precisa se abrir para ele. Como quando você pula dentro da água fria: se você tentar se refugiar da água fria dentro da água fria você vai se dar muito mal. Na hora em que você aceita a situação, seu corpo começa a esquentar.
A experiência de deitar-se num descampado
Aula 5, 25 de abril.
Aluno: Como distinguir uma evidência intuitiva de uma crença infundada?
Essa distinção também é intuitiva. A crença intuitiva, a evidência intuitiva se caracteriza pela presença do objeto – presença que pode ser direta ou presença através de imaginação. De fato, você vai ter uma dificuldade de imaginar a crença infundada, de transfigurá-la em realidade concreta. Claro que você vai ter de desenvolver um certo senso da concretude, que eu pretendo trabalhar bastante neste curso. Quando eu digo "imaginar a situação", não é só você inventar um teatrinho no qual aquilo pareça estar acontecendo, mas é você inventar um teatrinho que possa estar inserido no contexto real da sua vida, e para isso você precisa ter sempre o senso desse contexto e o senso dessa abertura. Esta abertura você conquista. Não é nos livros que você vai ter isso, porque essa abertura não é perante as idéias, é perante a realidade. Tem uma série de experiências que eu sugiro que as pessoas façam. Por exemplo: você ir para um lugar onde não tem ninguém, deitar no meio de um descampado, de noite, sentir a terra debaixo de você e olhar a infinitude do céu em cima – e perceber que você está ali realmente, que é ali que você está naquele momento. Toda a rede de relações sociais em que você se apóia, ali não está presente. Todo o seu universo linguístico também não está presente. Estou só falando agora, não estou sugerindo que façam ainda. Um pouco mais tarde eu explico como é que se faz isso: você tomar uma consciência não-verbal da sua presença física no universo real, no universo ilimitado. Isso você tem de fazer, uma vez ou duas na vida. E assim você vai desenvolvendo o senso da presença maciça da realidade, na qual o seu pensamento não pode absolutamente nada. Muitas vezes a vida nos coloca nessas situações. Por exemplo: quando você passa um perigo físico muito grande, você percebe que aquilo que você pensa ou deixa de pensar "não inflói nem contribói". Isto é realidade, isto vale mais do que qualquer idéia. O Voegelin tem razão quando ele diz que a experiência da realidade é em si mesma transcendente, quer dizer, uma coisa que abre para o infinito necessariamente. Você desenvolvendo isso, você acaba captando essa distinção de que você está falando: o que é uma evidência intuitiva do que é uma crença infundada. Crença é uma coisa que só vale pela repetição. Se você não repetir, você esquece. Mas tem uma série de coisas que você não precisa pensar jamais e você continua acreditando nelas. Por exemplo: a idéia de que o chão não termina onde você o vê. Tem alguma coisa embaixo dele, e embaixo outro embaixo – em suma, tem alguma coisa sólida embaixo de você. Essa sensação de solidez do chão é uma coisa importante. Nós nunca pensamos nisso, mas nós sempre contamos com isso. Essas coisas com as quais nós contamos são as primeiras que deveriam entrar no nosso universo filosófico, mas, no entanto, são geralmente as últimas. O número de idéias em circulação que simplesmente desmente a existência de realidade externa é muito grande. No entanto, nós devemos quase tudo a ela, quase tudo. Praticamente tudo o que você sabe, o que você pensa, tudo veio de fora – o que você criou é mínimo. Para você ter a experiência disso, você vai ter de perceber a sua pequenez, perceber que você é um átomo, [02:20:00] um quase nada. Você está na realidade quando percebe isso. As pessoas às vezes ficam com medo disso, mas elas têm de ter mais medo de escapar da realidade. Realidade existe e nós estamos nela. Não é uma idéia nossa, não é uma coisa que nós pensamos. Quando a gente se acostuma a ficar dentro da realidade existente e deixar que a realidade nos ensine, quando você perde o medo do tamanho da realidade [a situação se inverte] – você começa a ter medo da sua própria burrice, do seu próprio auto-engano. Aí você está no caminho da filosofia.
Alberto Caeiro in "Poemas Inconjuntos"
Quando está frio no tempo do frio
Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.
Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.
Seja o que for que esteja no centro do Mundo,
Seja o que for que esteja no centro do Mundo,
Deu-me o mundo exterior por exemplo de Realidade,
E quando digo «isto é real», mesmo de um sentimento,
Vejo-o sem querer em um espaço qualquer exterior,
Vejo-o com uma visão qualquer fora e alheio a mim.
Ser real quer dizer não estar dentro de mim.
Da minha pessoa de dentro não tenho noção de realidade.
Sei que o Mundo existe, mas não sei se existo.
Estou mais certo da existência da minha casa branca
Do que da existência interior do dono da casa branca.
Creio mais no meu corpo do que na minha alma,
Porque o meu Corpo apresenta-se no meio da realidade.
Podendo ser visto por outros,
Podendo tocar em outros,
Podendo sentar-se e estar de pé,
Mas a minha alma só pode ser definida por termos de fora.
Exista para mim — nos momentos em que julgo que efectivamente existe —
Por um empréstimo da realidade exterior do Mundo.
Se a alma é mais real
Que o mundo exterior, como tu, filósofo, dizes,
Para que é que o mundo exterior me foi dado como tipo da realidade?
Se é mais certo eu sentir
Do que existir a coisa que sinto —
Para que sinto
E para que surge essa coisa independentemente de mim
Sem precisar de mim para existir,
E eu sempre ligado a mim-próprio, sempre pessoal e intransmissível?
Para que me movo com os outros
Em um mundo em que nos entendemos e onde coincidimos
Se por acaso esse mundo é o erro e eu é que estou certo?
Se o Mundo é um erro, é um erro de toda a gente.
E cada um de nós é o erro de cada um de nós apenas.
Coisa por coisa, o Mundo é mais certo.
Mas porque me interrogo, senão porque estou doente?
Nos dias certos, nos dias exteriores da minha vida,
Nos meus dias de perfeita lucidez natural,
Sinto sem sentir que sinto,
Vejo sem saber que vejo,
E nunca o Universo é tão real como então,
Nunca o Universo está (não é perto ou longe de mim,
Mas) tão sublimemente não-meu.
Quando digo «é evidente», quero acaso dizer «só eu é que o vejo»?
Quando digo «é verdade», quero acaso dizer «é minha opinião»?
Quando digo «ali está», quero acaso dizer «não está ali»?
E se isto é assim na vida, porque será diferente na filosofia?
Vivemos antes de filosofar, existimos antes de o sabermos,
E o primeiro facto merece ao menos a precedência e o culto.
Sim, antes de sermos interior somos exterior.
Por isso somos exterior essencialmente.
Dizes, filósofo doente, filósofo enfim, que isto é materialismo.
Mas isto como pode ser materialismo, se materialismo é uma filosofia,
Se uma filosofia seria, pelo menos sendo minha, uma filosofia minha,
Se isto nem sequer é meu, nem sequer sou eu?
A guerra, que aflige com seus esquadrões o mundo,
A guerra, que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química directa da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem,
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!
Todas as opiniões que há sobre a Natureza,
Todas as opiniões que há sobre a Natureza
Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das cousas
Nunca foi cousa em que pudesse pegar como nas cousas;
Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?
Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.
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