Categorias
Artigos

O que estou fazendo aqui

A característica fundamental das ideologias é o seu caráter normativo, a ênfase no “dever ser”. Todos os demais elementos do seu discurso, por mais denso ou mais ralo que pareça o seu conteúdo descritivo, analítico ou explicativo, concorrem a esse fim e são por ele determinados, ao ponto de que as normas e valores adotados decidem retroativamente o perfil da realidade descrita, e não ao inverso.

Isso não quer dizer que às ideologias falte racionalidade: ao contrário, elas são edifícios racionais, às vezes primores de argumentação lógica, mas construídos em cima de premissas valorativas e opções seletivas que jamais podem ser colocadas em questão.

Daí que, como diz A. James Gregor, o grande estudioso do fenômeno revolucionário moderno, o discurso ideológico seja “enganosamente descritivo”: quando parece estar falando da realidade, nada mais faz do que buscar superfícies de contraste e pontos de apoio para o “mundo melhor” cuja realização é seu objetivo e sua razão de ser.

Se o cidadão optou pelo socialismo, ele descreverá o capitalismo como antecessor e adversário, suprimindo tudo aquilo que, na sociedade capitalista, não possa ser descrito nesses termos.

Se escolheu a visão iluminista da democracia como filha e culminação da razão científica, descreverá o fascismo como truculência irracional pura, suprimindo da História as décadas de argumentação fascista – tão racional quanto qualquer outro discurso ideológico – que prepararam o advento de Mussolini ao poder.

Tendo isso em vista, a coisa mais óbvia do mundo é que nenhum dos meus escritos e nada do que eu tenha ensinado em aula tem caráter ideológico, e que descrever-me como “ideólogo da direita”, ou ideólogo do que quer que seja,  só vale como pejorativo difamatório, tentativa de me reduzir à estatura mental do anão que assim me rotula.

Podem procurar nos meus livros, artigos e aulas.  Não encontrarão qualquer especulação sobre a “boa sociedade”, muito menos um modelo dela.

Posso, no máximo, ter subscrito aqui ou ali, de passagem e sem lhe prestar grande atenção, este ou aquele preceito normativo menor em economia, em educação, em política eleitoral ou em qualquer outro domínio especializado, sem nenhuma tentativa de articulá-los e muito menos de sistematizá-los numa concepção geral, numa “ideologia”.

Isso deveria ser claro para qualquer pessoa que saiba ler, e de fato o seria se a fusão de analfabetismo funcional, malícia e medo caipira do desconhecido  não formasse aquele composto indissolúvel e inalteravelmente fedorento que constitui a forma mentis dos nossos “formadores de opinião” hoje em dia (refiro-me, é claro, aos mais populares e vistosos e à sua vasta plateia de repetidores no universo bloguístico, não às exceções tão honrosas quanto obscuras, das quais encontro alguns exemplos neste mesmo Diário do Comércio).

É óbvio que essas pessoas são incapazes de raciocinar na clave do discurso descritivo. Não dizem uma palavra que não seja para “tomar posição”, ou melhor, para ostentar uma auto-imagem lisonjeira perante os leitores, devendo, para isso, contrastá-la com algum antimodelo odioso que, se não for encontrado, tem de ser inventado com deboches, caricaturações pueris e retalhos de aparências.

A coisa mais importante na vida, para essas criaturas, é personificar ante os holofotes alguns valores tidos como bons e desejáveis, como por exemplo “a democracia”, “os direitos humanos”, “a ordem constitucional”, “a defesa das minorias”, etc. e tal, colocando nos antípodas dessas coisas excelentíssimas qualquer palavra que lhes desagrade.

Alguns desses  indivíduos  tiveram as suas personalidades tão completamente engolidas por esses símbolos convencionais do bem, que chegam a tomar qualquer reclamação, insulto ou crítica que se dirija às suas distintas pessoas como um atentado contra a democracia, um virtual golpe de Estado.

O desejo  de personificar coisas bonitas como a democracia e a ordem constitucional é aí tão intenso que, no confronto entre esquerda e direita, os dois lados se acusam mutualmente de “golpistas” e “fascistas”. Melhor prova de que se trata de meros discursos ideológicos não se poderia exigir.

Da minha parte, meus escritos políticos dividem-se entre a busca de conceitos descritivos cientificamente fundados e a aplicação desses conceitos ao diagnóstico de situações concretas, complementado às vezes por prognósticos que, ao longo de mais de vinte anos, jamais deixaram de se cumprir.

Dessas duas partes, a primeira está documentada nas minhas apostilas de aulas (especialmente dos cursos que dei na PUC do Paraná), a segunda nos meus artigos de jornal.

Os leitores destes últimos não têm acesso direto à fundamentação teórica, mas encontram neles indicações suficientes de que ela existe, de que não se trata de opiniões soltas no ar, mas, como observou Martin Pagnan, de ciência política no sentido estrito em que a compreendia o seu mestre e amigo, Eric Voegelin.

Não há, entre os mais incensados “formadores de opinião” deste país — jornalísticos ou universitários –, um só que tenha a capacidade requerida, já não digo para discutir esse material, mas para apreendê-lo como conjunto.

Descrevo aí as coisas como as vejo por meio de instrumentos científicos de observação, pouco me importando se vou “dar a impressão” de ser democrata ou fascista, socialista, neocon, sionista, católico tradicionalista, gnóstico ou muçulmano.

Tanto que já fui chamado de todas essas coisas, o que por si já demonstra que os rotuladores não estão interessados em diagnósticos da realidade, mas apenas em inventar, naquilo que lêem, o perfil oculto do amigo ou do inimigo, para saber se, na luta ideológica, devem louvá-lo ou achincalhá-lo.

A variedade mesma das ideologias que me atribuem é a prova cabal de que não subscrevo nenhuma delas, mas falo numa clave cuja compreensão escapa ao estreito horizonte de consciência dos ideólogos que hoje ocupam o espaço inteiro da mídia e das cátedras universitárias.

Suas reações histéricas e odientas, suas poses fingidas de superioridade olímpica, sua invencionice entre maliciosa e pueril, seus afagos teatrais de condescendência paternalista entremeados de insinuações pérfidas, são os sintomas vivos de uma inépcia coletiva monstruosa, como jamais se viu antes em qualquer época ou nação.

O que neste país se chama de “debate político” é de uma miséria intelectual indescritível, que por si só já fornece a explicação suficiente do fracasso nacional em todos os domínios – economia, segurança pública, justiça, educação, saúde,  relações internacionais etc.

Digo isso porque a intelectualidade falante demarca a envergadura e a altitude máximas da consciência de um povo. Sua incapacidade e sua baixeza, que venho documentando desde os tempos do Imbecil Coletivo (1996), mas que depois dessa época vieram saltando do alarmante ao calamitoso e daí ao catastrófico e ao infernal, refletem-se na degradação mental e moral da população inteira.

De todos os bens humanos, a inteligência –e inteligência não quer dizer senão consciência –se distingue dos demais por um traço distintivo peculiar: quanto mais a perdemos, menos damos pela sua falta. Aí as mais óbvias conexões de causa e efeito se tornam um mistério inacessível, um segredo esotérico impensável. A conduta desencontrada e absurda torna-se, então, a norma geral.

Durante quarenta anos, os brasileiros deixaram, sem reclamar, que seu país se transformasse no maior consumidor de drogas da América Latina; deixaram que suas escolas se tornassem centrais de propaganda comunista e bordéis para crianças; deixaram, sem reclamar, que sua cultura superior fosse substituída pelo império de farsantes semi-analfabetos; deixaram, sem reclamar, que sua religião tradicional se prostituísse no leito do comunismo, e correram para buscar abrigo fictício em pseudo-igrejas improvisadas onde se vendiam falsos milagres por alto preço; deixaram, sem reclamar, que seus irmãos fossem assassinados em quantidades cada vez maiores, até que toda a nação tivesse medo de sair às ruas e começasse a aprisionar-se a si própria atrás de grades impotentes para protegê-la; deixaram, sem reclamar, que o governo tomasse as suas armas, e até se apressaram em entregá-las, largando suas famílias desprotegidas, para mostrar o quanto eram bonzinhos e obedientes. Depois de tudo isso, descobriram que os políticos estavam desviando verbas do Estado, e aí explodiram num grito de revolta: “Não! No nosso rico e santo dinheirinho ninguém mexe!”

A rebelião popular contra os comunolarápios não nasce de nenhuma indignação moral legítima, mas emana da mesma mentalidade dinheirista que inspira os corruptos mais cínicos.

Não só o dinheiro é aí o valor mais alto, talvez o único, mas tudo parece inspirar-se na regra: “Eu também quero, senão eu conto para todo mundo.” É óbvio que, se essa mentalidade não prevalecesse no nosso meio social, jamais a corrupção teria subido aos níveis estratosféricos que alcançou com o Mensalão, o Petrolão etc.

O ódio ao mal não é sinal de bondade e honradez: faz parte da dialética do mal odiar-se a si mesmo, mover guerra a si mesmo e proliferar por cissiparidade.

O mais significativo de tudo é que fenômeno de teratologia moral tão patente, tão visível e tão escandaloso não mereça sequer um comentariozinho num jornal, quando deveria ser matéria de mil estudos sociológicos.

Querem maior prova de que os luminares da mídia e das universidades não têm o menor interesse em conhecer a realidade, mas somente em promover suas malditas agendas ideológicas?

Foi por isso que, mais de vinte anos atrás, cheguei à conclusão de que toda solução política para os males do país estava, desde a raiz, inviabilizada pelo caráter fútil e perverso das discussões públicas.

Só havia um meio – difícil e trabalhoso, mas realista —  de mudar para melhor o curso das coisas neste país, e esse curso não passava pela ação político-eleitoral. Era preciso seguir, “sem parar, sem precipitar e sem retroceder”, como ensinava o Paulo Mercadante, as seguintes etapas:

1. Revigorar a cultura superior, treinando jovens para que pudessem  produzir obras à altura daquilo que o Brasil tinha até os anos 50-60 do século passado.

2. Higienizar, assim, o mercado editorial e a mídia cultural, criando aos poucos um novo ambiente consumidor de alta cultura e saneando, dessa maneira, os debates públicos.

3. Sanear a grande mídia, mediante pressão, boicote e ocupação de espaços.

4. Sanear o ambiente religioso — católico e protestante.

5. Sanear, gradativamente, as instituições de ensino.

6. Por fim, elevar o nível do debate político, fazendo-o tocar nas realidades do país em vez de perder-se em chavões imateriais e tiradas de retórica vazia. Esta etapa não seria atingida em menos de vinte ou trinta anos, mas não existe “caminho das pedras”, não há solução política, não há fórmula ideológica salvadora. Ou se percorrem todas essas etapas, com paciência, determinação e firmeza, ou tudo não passará de uma sucessão patética de ejaculações precoces.

Esse é o projeto a que dediquei minha vida, e do qual os artigos que publico na mídia não são senão uma amostra parcial e fragmentária. Imaginar que fiz tudo o que fiz só para criar um “movimento de direita” é, na mais generosa das hipóteses, uma estupidez intolerável.

Quanto ao ítem número um, não se impressionem com os apressadinhos que, tendo absorvido superficialmente alguns ensinamentos meus, já quiseram sair por aí, brilhando e pontificando, numa ânsia frenética de aparecer como substitutos melhorados do Olavo de Carvalho.

Esses são apenas a espuma, bolhas de sabão que o tempo se encarregará de desfazer. Tenho ainda uma boa quantidade de alunos sérios que continuam se preparando, em silêncio, para fazer o bom trabalho no tempo devido.

Categorias
Artigos

Intimação

Até os anos 80 do século passado, programas como sex lib, feminismo, gayzismo, abortismo e liberação das drogas eram, para os governos comunistas, desvios pequeno-burgueses criados pelo imperialistas ianques para afastar a juventude da luta pelo socialismo.

Decorrida uma geração, todos esses temas foram absorvidos no discurso revolucionário e muito contribuíram para que o esquerdismo, aparentemente condenado à morte pela queda da URSS, não só sobrevivesse como se tornasse a força política dominante na Europa e nas Américas.

Se isso não basta para tornar evidente a potência de autotransformação camaleônica do movimento revolucionário mundial, não sei mais quantos desenhos seria preciso esboçar no quadro negro para ilustrá-la. No entanto, pouquíssimas são as inteligências que, nas hostes liberais e conservadoras, se deram clara conta desse fenômeno e de suas conseqüências.

Mas outras mutações concomitantes, tão vastas e profundas como essa, vieram a tornar o panorama ainda mais confuso.

Cito somente quatro:

1. A invasão islâmica, a “ocupação pela imigração”, cuja realidade muitos negavam até ontem, é agora um fato patente que ameaça a segurança de todas as nações ocidentais. Ao mesmo tempo, o cristianismo vem sendo cada vez mais  banido da esfera pública, só deixando aos governos, mesmo soi disant conservadores, a saída de opor, à islamização crescente, o apelo aos mesmos valores laicos “politicamente corretos” que a esquerda conseguiu impor como normas universalmente válidas.

O resultado é óbvio: a invasão islâmica não cessa, mas a esquerda se afirma cada vez mais como a grande e única salvadora das democracias, que ao mesmo tempo ela solapa mediante o apoio ostensivo à imigração muçulmana em massa como alternativa “pacífica” ao terrorismo.

2. Instruído ao menos parcialmente pelo “eurasianismo” de Alexandre Duguin, o presidente russo Vladimir Putin decidiu empunhar a bandeira do cristianismo tradicional e brandi-la contra o Ocidente hedonista e agnóstico, ganhando com isso o apoio de amplas faixas de conservadores desiludidos.

Desiludidos seja com o establishment americano, impotente para livrar-se de um bandidinho chinfrim sem documentos que já mal esconde suas simpatias islâmicas; seja com a Igreja Católica, cujo Papa se parece cada vez mais com um upgrade improvisado do sr. Leonardo Boff.

Ao mesmo tempo que seduz esse público, porém, Putin vai, mediante acordos de cooperação econômica e militar, dando a maior força aos movimentos esquerdistas por toda parte, colocando os conservadores na posição desconfortável de servir a seus inimigos estratégicos em troca de um reconforto ideológico passageiro e muito provavelmente ilusório.

3. Também simultaneamente, muitos grupos capitalistas bilionários passaram a apoiar partidos e movimentos de esquerda de maneira cada vez mais ostensiva, culminando na declaração pública do sr. Bill Gates de que só o socialismo salvará o mundo.

Nesse panorama, a mera defesa da economia de mercado, que até ontem era a pièce de resistance do cardápio liberal-conservador, perde todo sentido estratégico e se torna um mero pretexto para adotar, em nome da “modernidade” e da “democracia”, todo o programa sociocultural da esquerda: gayzismo, abortismo, etc. etc.

4. Por fim, esse programa foi integralmente subscrito pela ONU e se tornou obrigatório para todas as nações — exceto as islâmicas, é claro, que assim se beneficiam duplamente da dissolução moral do Ocidente, por um lado aproveitando-se da debilitação das identidades nacionais (desprovidas cada vez mais de seus fundamentos religiosos) e arrombando portas para a entrada de novas levas de imigrantes, por outro lado oferecendo-se gentilmente como portadoras da esperança de uma possível “restauração da moralidade”.

Tudo parece calculado, enfim – pelo demônio em pessoa, quem mais?– para aprisionar a opinião pública mundial numa rede de ambigüidades e contradições paralisantes, de modo pegá-la desprevenida, sonsa e inerme no dia em que se realizar a profecia que Carlos Drummond de Andrade enunciou nos versos da “Intimação”:

Abre em nome da lei.

Abre sem nome e lei.

Abre mesmo sem rei.

Abre sozinho ou grei.

Não, não abras; à força

de intimar-te, repara:

eu já te desventrei.

Categorias
Artigos

El Mayor

Pelo critério das ações objetivas, Lula entrará para a história como o grande salvador e unificador não só da esquerda brasileira, mas do movimento comunista latino-americano, que sem ele teria ido para a lata de lixo na década de 90

O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva leva uma vida invejavelmente rica e apaixonante, mas num ponto ele tem razão de se queixar: é o homem mais incompreendido do Brasil.

Nunca um personagem foi tão falado, comentado, analisado, louvado e achincalhado sem critério nem senso de observação, sem comparações objetivas nem conceitos descritivos apropriados. Cada um exerce ferozmente, a respeito dele, a paixão humana de juntar palavras no vazio para obter, da contemplação da mera ordem gramatical, a sensação voluptuosa de ter dito algo de importante.

Das muitas teorias que circularam sobre o personagem, talvez a mais imbecil seja aquela que o considerava um imbecil. Eu mesmo, confesso, me senti de início tentado a julgá-lo um incapaz, um trapalhão de comédia da Atlântida.

Como tantos outros, fui levado a isso pela impressão da sua aparência entre desleixada e grotesca, da sua retórica populista, das suas hediondas metáforas futebolísticas, da sua dislalia renitente que trocava os “ss” por “ff”.

Mas nenhum homem pode ser julgado pela falta de qualidades que nunca lhe interessaram. É preciso medi-lo pelo que ele tentou fazer e pelos resultados que obteve.

E o fato é que, após um começo difícil, Lula veio caminhando de vitória em vitória, desnorteando os adversários, articulando com mão de mestre os grupos mais heterogêneos e os interesses mais incompatíveis, até concentrar nas suas mãos mais poder que qualquer dos governantes que o antecederam, reduzindo a pó as oposições e transformando o Estado inteiro numa máquina dócil aos seus interesses partidários. Isso ele quis fazer, e fez. Isso foi o objetivo da sua vida, e foi exemplarmente realizado. A seus inteligentíssimos e refinadíssimos desafetos só restou, como prêmio de consolação, a pose de desprezo fingido, camuflagem do ódio impotente.

Como seria possível um tolo grosseirão ter uma carreira tão espetacular?

A impressão visual era, sem dúvida, enganosa. Se comparassem o homem com personagens reais, em vez de modelos de perfeição estereotipados, perguntariam: afinal, que encantos físicos ou indumentários possuía Josef Stálin? Que grandes tesouros de cultura havia na cabeça de Benito Mussolini? E qual é o problema com os “ss” e “ff”, se Lênin jamais conseguiu pronunciar o “r” russo e seus discursos soavam como fala infantil?

No mesmo intuito de depreciar o que não se consegue derrotar, mas indo um pouco além na presunção interpretativa, muitos liberais brasileiros, esses tipos sublimes, se viram levados a classificar Lula como “populista” porque lhes parecia inculto demais para ser comunista.

“Como falar em marxismo se Lula sequer leu uma página de Marx?”, perguntava o  indefectível Marco Antônio Villa, que não perde uma oportunidade de julgar o que não conhece (aqui).

A premissa embutida na pergunta é que o líder comunista tem de ser um intelectual, capaz de orientar-se no mare magnum de O Capital e dar lições eruditíssimas sobre as três leis da dialética materialista. Um tipo como Plekhanov ou Caio Prado Júnior.

Mas isso é a visão de um observador leigo. Dentro do movimento comunista, ao contrário, a condição de intelectual sempre foi um handicap, um sinal de alerta para o risco de hesitações pequeno-burguesas.

Credencial infinitamente mais prezada do que isso era a origem proletária puro-sangue. Nos meios comunistas brasileiros, atulhados de intelectuais pequeno-burgueses, a chegada de um genuíno líder operário recém-importado diretamente do ABC foi uma lufada de ar fresco, uma festa e um anúncio de melhores dias.

Em contraste com o sr. Villa, quem estudou a história do comunismo deve lembrar-se da figura do general Fernando Flores Ibarra, um dos líderes máximos da Revolução Cubana, amigo íntimo e homem de confiança de Fidel Castro, além de responsável maior pela matança de opositores, o que lhe rendeu o gentil apelido de “Charco de Sangre”.

Pois bem, Flores não entendia uma palavra de marxismo-leninismo, não conseguia sequer ler Marx e Engels e, rindo muito, até se gabava disso em público.

Se um exemplum in contrarium não basta para impugnar a validade de um modelo geral, cabe lembrar o papel essencial desempenhado, no movimento comunista da África do Sul, por hordas de trabalhadores recém-egressos do meio tribal, que um historiador descreveu como “incultos, mas possuidores de um elevado senso de solidariedade comunista” (A. B. Davidson, South Africa and the Communist International: Bolshevik Footsoldiers to Victims of Bolshevisation, 1931-1939, Psychology Press, 2003).

“Inculto, mas possuidor de um elevado senso de solidariedade comunista” é quase uma descrição literal do Lula. Foi ele quem, atravessando toda sorte de crises internas, conseguiu criar e salvar sempre a unidade do seu partido, depois a de um pool de partidos aliados sem afinidade ideológica nenhuma, por fim a da esquerda latino-americana inteira.

Não há militante que, ouvindo-o dizer “Companheiros!” não se sinta incluído no grande abraço solidário de uma imensa comunidade combatente.

Um líder político não se julga pelo seu grau de cultura letrada, nem pelas suas convicções íntimas, que permanecem para sempre impenetráveis, mas pelas forças históricas reais que ele encarnou e às quais imprimiu indelevelmente a sua marca pessoal.

Quando Barack Hussein Obama disse de Lula “Esse é o cara!”, ele sabia que estava diante da imagem suprema do comunismo latino-americano.

Após ouvir as ponderações de tarimbados comunistas alemães sobre o fracasso do socialismo chileno, Roberto Ampuero escreveu:

“Convenci-me então de que a esquerda chilena tinha sido guiada por políticos amadores e irresponsáveis, por marxistas de salão afetados de incontinência verbal, por ideólogos capazes de persuadir o seu país a dar um salto no vazio, por líderes incapazes de desenvolver um projeto viável e sustentável.”

O mesmíssimo diagnóstico aplica-se com perfeição ao governo João Goulart: bravatas, radicalismo verbal histérico, inabilidade de concentrar poder por meio de alianças e negociações – precisamente as falhas das quais não se pode acusar o sr. Lula.

A imagem que o sr. Villa e similares têm do comunista típico corresponde precisamente à daquilo que os comunistas de verdade chamam de “marxista de salão”.

Daí deriva um segundo erro monumental na imagem que pintam do sr. Lula. Poucas coisas neste mundo me irritam, mas uma delas é ouvir esquerdistas e direitistas – sempre unânimes na estupidez – dizerem que “Lula traiu seus  ideais”.

Uns tentam, com esse artifício verbal, salvar a honra da esquerda, maculada pelo descrédito atual do líder.

Os do outro lado nem percebem que os ajudam nisso ao medir o chefe do Mensalão na régua dos seus próprios valores proclamados, danando a reputação dele mas consagrando esses valores como medida absoluta das ações humanas e concedendo ao adversário uma vitória ideológica geral duradoura em troca de uma vantagem pontual momentânea.

Em ambos os casos, é puro fingimento histérico: uns e outros não raciocinam a partir dos fatos e da História, mas das impressões que desejam incutir na platéia, das quais, para maior verossimilhança do efeito, tratam primeiro de imbuir-se a si próprios. Não são analistas políticos, são marqueteiros, interessados apenas nos resultados imediatos, totalmente insensíveis aos fatores de longo prazo.

Para quem raciocina com base no estereótipo do “idealismo comunista” – uma autoprojeção do espírito pequeno-burguês que nada tem a ver com a realidade dos partidos comunistas –, parece lógico que, se um político de esquerda vai para cama com grandes capitalistas, comete adultério, macula a pureza dos seus “ideais”.

Na história real do movimento comunista, ao contrário, todo idealismo é considerado uma debilidade pequeno-burguesa, e a recusa de fazer alianças necessárias à concentração de poder um pecado mortal.

“Se você tem quatro inimigos – dizia Lênin –, alie-se com três contra o quarto, depois com dois contra o terceiro, depois com um contra o segundo.”

Quanto à intimidade com o grande capital, Stálin, nos anos 30, recomendava ao partido comunista dos EUA que deixasse de lado os proletários e tratasse de conquistar os corações e mentes dos ricos e importantes (V. Stephen Koch, Double Lives).

Foi isso o que mais tarde garantiu à URSS o afluxo de dinheiro americano com que se construiu o parque industrial bélico soviético em tempo de reagir com sucesso à invasão alemã.

Concentrar poder por todos os meios possíveis e imagináveis, inclusive mediante alianças com o “inimigo de classe”, é a obrigação número um de todo líder comunista. O sucesso que Lula obteve por esse meio é indiscutível. E é preciso ser uma espécie de PhD em idiotice para medir o coeficiente de comunismo na mente de um político com a régua de um estereótipo moralista pequeno-burguês.

Mais idiota ainda é recusar-se a chamar um comunista de comunista enquanto ele não declarar que o é. Pois nada mais constante, na história do comunismo, do que a sua persistência em parecer outra coisa, em adornar-se com outros nomes: Front Popular, antifascismo, terceiromundismo, “não alinhados”, progressismo, trabalhismo, desenvolvimentismo, o diabo.

Porém o suprassumo da  cretinice é contestar a fidelidade de Lula ao comunismo mediante a alegação de que é um larápio, um corrupto.

Qual grande líder comunista não o foi? Qual não viver como um nababo enquanto seu povo comia ratos? Qual partido comunista subiu ao poder sem propinas, sem desvio de dinheiro público, sem negócios escusos, sem roubo e chantagem? Nada mais desprezível, nos meios comunistas, do que o moralismo pequeno-burguês que se apega às regras da decência formal em vez de seguir a moral marxista segundo a qual o bem é o que aumenta o poder do Partido, o mal o que o diminui.

Corrupção? Ninguém expressou melhor a atitude comunista quanto a esse ponto do que o poeta oficial do Partido Comunista francês, Louis Aragon: “Corromperemos o Ocidente a tal ponto, que ele vai começar a feder.” Ninguém encarnou melhor esse propósito do que Luís Inácio Lula da Silva.

Pelo critério das ações objetivas, Lula entrará para a história como o grande salvador e unificador não só da esquerda brasileira, mas do movimento comunista latino-americano, que sem ele teria ido para a lata de lixo na década de 90, como bem observou o comando das Farc em mensagem enviada ao décimo-quinto aniversário do Foro de São Paulo.

Lula pode não entender grande coisa de economia marxista, mas em matéria de estratégia e tática foi o maior dos maiores, um autêntico mestre da duplicidade dialética .

Chegou ao cume com uma habilidade impressionante, que o próprio Lênin aplaudiria, e cumpriu seu papel na transição revolucionária, instaurando a hegemonia, a concentração poder político e econômico e o aparelhamento do Estado. Quem, na América Latina inteira, conseguiu fazer mais?

Perto dele, Luís Carlos Prestes e Carlos Marighela foram apenas amadores trapalhões, especialistas em fracasso.

Comparem-no, até, com Fidel Castro. Após um começo espetacular, o ditador cubano, desde o fiasco da OLAS com suas guerrilhas, se encolheu à condição de reizinho de um povo faminto e esfarrapado.

Esquecido do mundo, encalacrado na sua ilha, frustradas todas as suas ambições de revolução continental, teria morrido entre espasmos de revolta impotente se Lula não o salvasse do isolamento mediante a idéia genial do Foro de São Paulo, que realizou precisamente o que o generalíssimo jamais conseguiu: elevar ao poder os partidos comunistas e pró-comunistas nos principais países da América Latina.

Não é de estranhar que essa construção tão laboriosamente erigida começasse a desabar justamente no instante em que Lula se retirou da presidência da República, deixando no seu lugar uma trapalhona autêntica, e, debilitado pela velhice e pelas acusações de corrupção, desacelerou suas atividades no Foro de São Paulo para dedicar tempo integral à crise da esquerda local e aos seus próprios problemas com a Justiça. Sem ele, a esquerda latino-americana tem os dias contados. Todas as suas glórias foram obra dele, e sem ele vão para o beleléu.

De longe, e sob todos os aspectos, Lula foi o maior e mais eficiente líder comunista que a América Latina já conheceu – o criador e guru de Chávez, Maduro, Morales e tutti quanti, o articulador da estratégia unificada continental. A direita jamais conseguiu derrotá-lo porque jamais conseguiu compreendê-lo. E não conseguiu compreendê-lo porque insistia em descrevê-lo com os chavões jornalísticos do dia, em vez de medi-lo na escala maior da História.

Nesse sentido, Lula foi, de todas as figuras públicas do Brasil recente, a mais digna de respeito. Não pelas suas virtudes morais, que inexistem, mas pela sua “virtù” no sentido maquiavélico do termo: uma vontade de ferro aliada a uma flexibilidade estratégico-tática totalmente desprovida de escrúpulos e capaz, por isso mesmo, de dobrar a seu talante o curso da História, levando-a para onde bem deseja, ante os olhos atônitos de adversários sonsos que não conseguem nem mesmo descrever o que ele está fazendo.

Não somente em escala nacional, mas continental, o homem que nada sabia de marxismo conseguiu realizar o objetivo de Antonio Gramsci, elevando o seu partido às dimensões de “um poder onipresente e invisível como o de um imperativo categórico, de um mandamento divino”.

Ninguém, na política brasileira ou continental dos últimos quarenta anos, pode se ombrear com ele em envergadura, em capacidade de ação eficaz, em amplitude das ambições realizadas.

Os que empinam os narizinhos para depreciá-lo são como pulgas que criticam o cachorro que as transporta, sem saber para onde as leva.

Sim, ele merece respeito.  No mínimo, é como num filme que vi há tempos, cujo título me escapa, no qual o líder local de uma aldeia mexicana era tão temido e respeitado que todos o chamavam de “El Mayor”. E só na intimidade, a uma distância segura dos ouvidos do tirano, ousavam declarar o nome por extenso: “El Mayor Hijo de Puta”.

Categorias
Artigos

Estupidez endêmica

Algumas ideias espalham-se com grande sucesso não apesar de serem estúpidas, mas precisamente porque o são. A estupidez maciça exerce um poder anestésico e paralisante sobre a inteligência humana, detendo o seu movimento natural e fazendo-a girar em falso em torno de alguma crença idiota por anos, décadas ou séculos, incapaz de livrar-se do seu magnetismo perverso ou de pensar o que quer que seja fora do círculo de ferro da idiotice consagrada.

O exemplo mais assombroso é este:

É impossível descobrir ou traçar qualquer conexão lógica entre as liberdades civis e a estatização dos meios de produção. São esquemas não somente heterogêneos, mas antagônicos. Antagônicos lógica e materialmente.

Qualquer garoto de ginásio pode compreender isso tão logo lhe expliquem o sentido dos dois conceitos. A candura com que tantos homens adultos falam em “socialismo com liberdade” – isto quando não chegam a acreditar que essas duas coisas são a mesma, ou que uma decorre da outra com a naturalidade com que as bananas nascem das bananeiras – é a prova inequívoca de uma deficiência intelectual alarmante, que desde há um século e meio se espalha sem cessar pelas classes cultas, semicultas e incultas com a força avassaladora de uma contaminação viral, sem dar sinais de arrefecer mesmo depois que a experiência histórica comprovou, de maneira universal e repetida, aquilo que poderia ser percebido antecipadamente por mera análise lógica e sem experiência histórica alguma.

A pergunta é simples e brutal: como é possível que a centralização do poder econômico, expandindo-o automaticamente sobre toda a sociedade e investindo-o da força suplementar do aparelho repressivo do Estado, venha a torná-lo menos opressivo e tirânico do que milhares de poderes econômicos parciais e limitados, espalhados como farelo, desprovidos do poder de polícia e em perpétua concorrência uns com os outros?

Ninguém deveria precisar de mais de alguns segundos para atinar com a resposta óbvia: Não, não pode. Nem se pode negar que os próprios clássicos do “socialismo científico” tenham ajudado a tornar essa resposta ainda mais patente, quando declararam alto e bom som que o que se seguiria ao capitalismo não seria uma democracia, de qualquer tipo que fosse, e sim a ditadura do proletariado.

O que eles não explicaram jamais, nem nenhum de seus seguidores pediu jamais que o fizessem, foi como essa ditadura, uma vez vitoriosa e consolidada, poderia transmutar-se numa democracia exceto pelo método de liquidar-se a si mesma, dissolvendo o monopólio estatal e distribuindo o poder econômico entre os particulares – outra impossibilidade lógica ilustrada por uma longa e sangrenta experiência histórica que um pouco de inteligência tornaria perfeitamente dispensável.

Em suma, a fé nas virtudes libertárias do socialismo, mesmo quando tênue e matizada, é sinal de uma deficiência cognitiva grave, que se espalha como praga e se arraiga no fundo dos cérebros por virtude da própria estupidez originária que a produz e determina.

Mas, como uma vez aprisionado na idiotice o cérebro humano nada consegue conceber fora dela ou sem referência a ela, o sucesso propagandístico da ideia socialista trouxe consigo uma multidão de cretinices derivadas e secundárias, cujo poder de persuasão não se rende nem mesmo ante a evidência dos fatos mais constantes e repetidos.

Uma delas é a crença, hoje um dogma de evangelho, de que a educação universal obrigatória tem o poder de aplanar as diferenças socioeconômicas. Pois deveria ser lógico e intuitivo que, se a exigência de credenciais escolares se impõe até nas profissões mais simples e modestas, credenciais mais altas e difíceis de obter se espalharão de maneira concomitante e automática entre as profissões mais prestigiosas e rentáveis, deslocando para cima, sem alterá-lo, o quadro inteiro da estratificação social.

O sociólogo Randall Collins, no clássico estudo The Credential Society. An Historical Sociology of Education and Stratification (New York, Academic Press, 1979), demonstrou que, exceto por um curto período durante o New Deal, foi exatamente isso o que se passou nos EUA: o reino das credenciais escolares não democratizou nada, apenas instituiu, nos andares mais altos da sociedade, a república das sinecuras milionárias, corrompendo de quebra o zé-povinho ao inocular na sua mente a ambição inalcançável da ociosidade bem remunerada.

Mas, assim como toda ideia estúpida tem o condão de paralisar a intuição lógica, mais ainda ela debilita e por fim suprime a capacidade de aprender com a experiência histórica, que não é senão a longa e dolorosa demonstração indutiva daquilo que, para uma inteligência normal, já estava demonstrado antes por mera análise dos conceitos envolvidos.

Pouco importando o seu nível formal de instrução, pessoas contaminadas por essa paralisia endêmica das inteligências naufragam num oceano tão escuro e denso de erros de percepção e raciocínio que terminam incapazes de conhecer a sua própria posição na sociedade e os efeitos mais óbvios das suas próprias ações, mesmo e sobretudo quando receberam treinamento universitário em ciências sociais.

O exemplo mais óbvio é o dos sociólogos, economistas, juristas e cientistas políticos de esquerda, quando alardeiam que as universidades são o “aparato ideológico da burguesia”, construído para perpetuar a hegemonia cultural do capitalismo. Pois proclamam isso nas mesmas universidades estatais que eles próprios dominam sem a menor interferência da burguesia e nas quais toda objeção capitalista ao império do marxismo é punida com boicotes, chacotas e notas baixas, se não com o fim abrupto de uma carreira universitária.

É óbvio que essas pessoas, literalmente, não sabem onde estão nem percebem o que fazem. Estão perdidas no espaço e no tempo — o que não impede que o restante da população continue confiando nelas para que lhe expliquem como a sociedade funciona.

Categorias
Artigos

Instituições criminosas

Já comentei aqui, brevemente, a pesquisa da CNT sobre a queda da confiança popular nas várias instituições e a do Datafolha que mostra o abismo de diferenças entre a opinião popular e a dos políticos. (Veja meu artigo descrédito_geral e as fontes:http://imguol.com/blogs/52/files/2015/07/pesquisa-cntmda-128-relatorio-sintese.pdf  e politicos-brasileiros são mais liberais do que o eleitorado diz pesquisa.)

O confronto dos resultados leva a uma conclusão inexorável: no sistema representativo brasileiro, os representantes não representam a vontade dos representados.

Tampouco a representam o poder executivo, os juízes, os comandantes militares e outras excelências cujas opiniões majoritárias seguem as dos políticos, não as do povo,  o qual por isso mesmo, como se vê na pesquisa da CNT, não confia em nenhuma dessas criaturas nem vê nelas os porta-vozes dos seus interesses.

Pura e simplesmente, não há um sistema representativo no Brasil. Há um sistema de coleta de votos para candidatos pré-selecionados segundo os interesses do grupo dominante e uma máquina de drenagem de impostos para sustentar nos seus cargos os antagonistas diretos e cínicos do povo brasileiro.

Por isso mesmo, todo discurso anticorrupção que se baseie na defesa das “nossas instituições” é uma fraude que tem de ser denunciada tanto quanto a corrupção mesma.

Essas instituições, cujo conjunto forma a “Nova República”, foram concebidas justamente para isolar e proteger a elite governante, tornando-a inacessível ao clamor popular.

Quem, senão as belas “instituições”, deu ao executivo os meios de aparelhar o Estado inteiro e fazer dele o instrumento dócil dos interesses partidários mais sórdidos e criminosos?

Quem, senão as “instituições”, permitiu que se elegesse uma presidente numa eleição secreta e opaca, blindada antecipadamente contra qualquer possibilidade de auditagem?

Quem, senão as “instituições”, permitiu que o Estado se transformasse no protetor de toda conduta marginal e criminosa, fazendo do Brasil o maior consumidor de drogas do continente, o maior promotor de violência contra os professores nas escolas e um dos recordistas mundiais de assassinatos?

Quem, senão as maravilhosas “instituições”, permitiu que um povo majoritariamente conservador e apegado a valores cristãos fosse representado na Câmara e no Senado por esquerdistas empenhados em fazer tudo ao contrário do que esse povo quer?

Quem, senão as sacrossantas “instituições”, permitiu que as escolas infanto-juvenis se transformassem em academias de sexo grupal, quando não em matadouros de professores, reduzindo as nossas crianças à condição de imbecis violentos, prepotentes e hiper-erotizados que anualmente tiram os últimos lugares nos testes internacionais mas tirariam os primeiros se fosse concurso para ator pornô ou cafajeste-modelo?

Quem, senão as “instituições”, desarmou a população brasileira ao mesmo tempo que, paparicando as Farc tão queridinhas do PT, permitia que os bandos de criminosos se equipassem de armas melhores e mais potentes que as da polícia?

Quem, senão as “instituições”, deu aos criminosos que nos governam o poder de burlar o quanto queiram o processo legislativo, legislando através de decretos administrativos, portarias ministeriais e até regulamentos departamentais?

Quem, senão as “instituições”, permitiu que ONGs de quadrilheiros armados fossem não só financiadas com gordas verbas federais mas se beneficiassem de toda sorte de privilégios ao ponto de tornar-se integrantes extra-oficiais do aparelho de Estado?

Quem, senão as “instituições”, permitiu que o Parlamento se superlotasse de pseudo-representantes eleitos sem votos, pela mágica dos acordos interpartidários – um artifício que, por si, já basta para fazer do sistema representativo inteiro uma palhaçada?

Releiam a Constituição de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a legislação eleitoral, etc. etc. e digam se o descalabro dos governos petistas já não estava todo lá em germe, apenas aguardando a oportunidade macabra de saltar do papel para a realidade.

Sob qualquer aspecto que se examine, as instituições que pesam sobre nós são indefensáveis. Fazer de conta que a roubalheira comunopetista atenta contra elas, ou constitui um risco para elas, é inverter a realidade das coisas. A roubalheira tudo deve a essas instituições. Elas são as mães e protetoras do crime institucionalizado.

Por isso é que todo movimento soi-disant de oposição que se concentre exclusivamente num pedido de impeachment da Sra Dilma Rousseff, em vez de exigir a imediata destituição de todos os astros e estrelas do sistema, é um erro na melhor das hipóteses; na pior, um engodo proposital.

Depois de quarenta anos de monopólio esquerdista da mídia, das universidades, dos movimentos de rua, das verbas oficiais, dos cargos públicos e de tudo quanto existe; depois de políticas insanas que levaram o Brasil a tornar-se o país mais assassino e o maior consumidor de drogas do continente; depois da completa destruição da alta cultura e do sistema educacional no país; depois dos maiores episódios de corrupção da história universal; depois do desmantelamento da agricultura nacional por grupos de invasores financiados pelo Estado; depois da expulsão de milhares de brasileiros das suas terras, para dá-las a ONGs indigenistas, depois de tudo isso o “resgate da nacionalidade” há de constituir-se da simples remoção da sra. Dilma Rousseff da presidência da República? Será que os oposicionistas se uniram ao PT no empenho de gozar da nossa cara?

Categorias
Artigos

Duas épocas

Um dos sinais mais óbvios da autenticidade humana de um movimento político é a sua capacidade de inspirar grandes obras de literatura. Todo movimento revolucionário, no início, tem esse dom, pela simples razão de que há sempre injustiças no mundo e a revolta contra elas é uma tendência natural do coração humano. Os revolucionários apenas se apropriam dela e a utilizam como canal para a conquista do poder. Invariavelmente, tão logo instalados no poder eles multiplicam e reforçam as injustiças em vez de eliminá-las.

Isso não acontece por uma coincidência ou por algum desvio dos ideais revolucionários, mas por efeito incontornável da própria mecânica revolucionária. Quem sobe ao poder em nome de uma sociedade futura, amaldiçoando a sociedade presente na sua totalidade, só se submete ao veredito do futuro e da História, colocando-se portanto acima do julgamento dos vivos. A cristalização do impulso revolucionário numa ditadura totalitária é assim o caminho normal e normativo das revoluções sociais e não uma distorção dos seus propósitos iniciais.

Daí que a literatura de inspiração revolucionária acabe logo cedendo lugar à literatura dos dissidentes, dos prisioneiros de consciência, dos exilados e desiludidos. E invariavelmente a segunda é mais forte e mais inspirada que a primeira, porque não reflete os ideais e slogans de um movimento político, mas a experiência direta dos horrores da revolução consolidada.

Por isso é que, se nos países capitalistas se produz alguma boa literatura comunista, nos países comunistas a única grande literatura que aparece é anticomunista.

Nada do que o comunismo em ascensão produziu na Rússia, nem mesmo A Mãe, de Máximo Gorki, ou O Don Silencioso, de Vladimir Sholokov, pontos altos da literatura soviética, se compara às obras-primas de Joseph Brodsky, Alexander Zinoviev, Alexander Soljenítsin, Ossip e Nadja Mandelstam.

No caso cubano, a diferença é mais pronunciada ainda. Quem ainda se lembrará de qualquer romance ou poema pró-castrista, se pode ler os livros de Guillermo Cabrera Infante, Severo Sarduy, Reinaldo Arenas e Leonardo Padura? Entre aqueles que não se opuseram frontalmente ao regime, ainda vale a pena ler Alejo Carpentier, que no seu período de burocrata paparicado pela ditadura nunca mais voltou a escrever algo do porte de El Reyno de Este Mundo, de 1949, e José Lezama Lima, Paradiso, de 1966, espancado pela crítica oficial cubana por sua estética “burguesa”.

Na esfera da filosofia e das ciências sociais, a penúria intelectual daquilo que proveio dos países da Cortina de Ferro contrasta de maneira patética com a riqueza e criatividade da produção marxista… nas democracias capitalistas.

Se os movimentos revolucionários inspiram ideias e obras de arte enquanto lutam contra um governo estabelecido, tão logo chegam ao poder dedicam-se com empenho e diligência em secar todas as fontes, em reduzir tudo a um deserto mental mil vezes mais seco e estéril do que qualquer ditadura reacionária jamais logrou instaurar.

No tempo dos militares, a esquerda queixava-se do empobrecimento intelectual do ambiente, ao qual no entanto ela própria, tanto quanto a direita, dava um brilho e um vigor que hoje seriam impensáveis.

Vejam só algumas amostras casuais de livros publicados naquela fase que os esquerdistas, por demagogia ou loucura, descreviam como o fundo do poço cultural.

À esquerda:
Antônio Callado: Quarup.
Carlos Heitor Cony: Pessach: A travessia.
Caio Prado Júnior: A Revolução Brasileira
Jorge Amado: Os Pastores da Noite; Dona Flor e Seus Dois Maridos; Tenda dos Milagres; Teresa Batista Cansada de Guerra; Tieta do Agreste; Tocaia Grande.
Jacob Gorender: O Escravismo Colonial.
Alfredo Bosi: O Ser e o Tempo da Poesia.
Jorge Andrade: Os Ossos do Barão; Labirinto.

Marques Rebelo: A Guerra Está em Nós.
Otto Maria Carpeaux: A Literatura Alemã; Vinte e Cinco Anos de Literatura.
Ferreira Gullar: Poema Sujo.
Antônio Cândido: Literatura e Sociedade; Formação da Literatura Brasileira.
José Honório Rodrigues: Conciliação e Reforma no Brasil; História e Historiadores do Brasil; Vida e História; História e Historiografia, e por fim o monumental Independência: Revolução e Contra-Revolução, em cinco volumes.
Ledo Ivo: A Noite Misteriosa; Calabar; Mar Oceano.
João Antônio: Leão-de-Chácara; Malhação do Judas Carioca; Abraçado ao Meu Rancor.
À direita:
Gilberto Freyre: Brasil, Brasis e Brasília; O Brasileiro entre os Outros Hispanos; Homens, Engenharias e Rumos Sociais.
Antônio Olinto: A Casa da Água.
Josué Montello: Os Degraus do Paraíso; Os Tambores de São Luís;  A Coroa de Areia; O Silêncio da Confissão.
José Guilherme Merquior: As Idéias e as Formas; A Natureza do Processo; De Anchieta a Euclides; O Argumento Liberal; O Elixir do Apocalipse; Michel Foucault; O Marxismo Ocidental.
Gerardo Mello Mourão: Peripécia de Gerardo; Os Peãs; O Valete de Espadas.
Herberto Sales: Dados Biográficos do Finado Marcelino; O Fruto do Vosso Ventre; Os Pareceres do Tempo; A Porta de Chifre; Na Relva da Tua Lembrança.
Gustavo Corção: Dois Amores, Duas Cidades; O Desconcerto do Mundo; O Século do Nada.
Miguel Reale: Experiência e Cultura; O Homem e Seus Horizontes; Verdade e Conjetura.
Manuel Bandeira: ESTRELA DA VIDA INTEIRA.

Nelson Rodrigues: Toda Nudez Será Castigada; Memórias; A Cabra Vadia; O Óbvio Ululante; À Sombra das Chuteiras Imortais; O Reacionário.
Por essa simples amostragem colhida a esmo – da qual excluo, de propósito, os autores politicamente inclassificáveis como Carlos Drummond de Andrade ou Pedro Nava –, é impossível não concluir que o período militar foi um dos mais criativos e pujantes da nossa história mental, só comparável ao Segundo Império e à “redescoberta do Brasil” nos anos 30 do século XX, da qual ele foi o herdeiro e continuador.

A década que se seguiu à “redemocratização” de 1984-85 já mostra, em contrapartida, os sintomas inequívocos de impotência e decrepitude que documentei em O Imbecil Coletivo (1997), e o tempo decorrido desde então evidencia, pelo vácuo generalizado, a morte da cultura superior no Brasil. Ainda mais impressionante do que esses dois fatos é a ausência de qualquer sinal de alarma ante fenômeno tão degradante, jamais observado antes em qualquer outro país do mundo ocidental. Como escrevi em 2012:

“Digo que essa entidade (a literatura brasileira) sumiu porque – creiam – não cesso de procurá-la. Vasculho catálogos de editoras, reviro a internet em busca de sites literários, leio dezenas de obras de ficção e poesias que seus autores têm o sadismo de me enviar, e no fim das contas encontrei o quê? Nada. Tudo é monstruosamente bobo, vazio, presunçoso e escrito em língua de orangotangos. No máximo aponta aqui e ali algum talento anêmico, que para vingar precisaria ainda de muita leitura, experiência da vida e uns bons tabefes.
“Mas, assim como não vejo nenhuma obra de literatura imaginativa que mereça atenção, muito menos deparo, nas resenhas de jornais e nas revistas “de cultura” que não cessam de aparecer, com alguém que se dê conta do descalabro, do supremo escândalo intelectual que é um país de quase duzentos milhões de habitantes, com uma universidade em cada esquina, sem nenhuma literatura superior. Ninguém se mostra assustado, ninguém reclama, ninguém diz um “ai”. Todos parecem sentir que a casa está na mais perfeita ordem, e alguns até são loucos o bastante para acreditar que o grande sinal de saúde cultural do país são eles próprios. Pois não houve até um ministro da Cultura que assegurou estar a nossa produção cultural atravessando um dos seus momentos mais brilhantes, mais criativos? Media, decerto, pelo número de shows de funk.”

Qual a diferença entre os dois períodos? É simples e brutal. Os militares não fizeram nenhum esforço de apropriar-se da cultura superior para usá-la como instrumento de propaganda. Deixaram que as coisas seguissem o seu próprio rumo. Podem até ser acusados de absenteísmo suicida, quando se vê que, ao longo de vinte anos de um regime que teve entre suas metas declaradas o combate à subversão orquestrada pela ditadura cubana, o governo não produziu um só filminho de propaganda anticomunista.
A “redemocratização” inaugurou o período da “organização da cultura” segundo os cânones preconizados por Antonio Gramsci: a era da “ocupação de espaços”, do  dirigismo cultural, da “hegemonia” na mídia, do terrorismo intelectual comunista nas universidades, da burocratização ditatorial de toda atividade mental superior e do boicote sistemático a toda opinião divergente do oficialismo esquerdista.

Os efeitos não poderiam ser mais visíveis nem mais catastróficos. Toda a esfera das atividades “culturais” tornou-se uma farsa subsidiada, um rateio de cargos, benesses, paparicações e verbas estatais entre os “companheiros”.

A corrupção da cultura superior antecedeu e preparou o advento dos Mensalões, dos Petrolões e da Smartmatic. E a própria reação popular evidencia a queda vertiginosa dos padrões de julgamento: a nação inteira, permanecendo sonsa, anestesiada e indiferente ante a destruição da cultura, só estrilou quando doeu no bolso.